Eu, vereador?

Uma frase sobre você, repetida duas vezes em sua cabeça pode ser apenas uma frase coincidente, para a qual o seu cérebro não dá a menor confiança. Ouça essa frase muitas vezes, por pessoas diferentes, e você passará a refletir sobre ela, e um dia ela te colocará em um lugar de escolhas. Durante muitos anos, ouvi, em meus trabalhos com jovens, educadores, na sala de aula, no ambiente corporativo, com a população de rua, no Carnaval, a afirmação: “Ney, você deveria se candidatar a vereador”. Minha resposta quase sempre foi com os versos de um samba de João Bosco e Aldir Blanc: “Não sou candidato a nada, meu negócio é madrugada, mas meu coração não se conforma”. Depois de um tempo, no entanto, aquele questionamento interno – por que não?- começou a germinar, brotar e crescer. Quanto mais o país se dividia, quanto mais eu percebia a descrença das pessoas em relação ao “fazer política”, eu me perguntava como seria se eu estivesse do outro lado do inconformismo, da negação e da desesperança. Que tipo de cidadão da pólis, envolvido com a politik, institucionalizada, eu seria.

 

Em meio a um Brasil de dores políticas, precisei enfrentar dores particulares, em 2016, na luta contra o primeiro câncer, que me deixaria, além das perplexidades da doença, todo um arsenal de intercorrências causadas pelo tratamento, desde um infarto provocado pela quimioterapia até uma necrose no fêmur, associada provavelmente à radioterapia e o volume excessivo de corticoides. Foram muitos dias de internações, CTIs, quase dois anos em cadeira de rodas com posterior aquisição de uma mobilidade reduzida e desafios que me fizeram uma outra pessoa.

Como a curiosidade pode até ter matado o gato, mas sempre fez minha vida mais instigante, entre enfermarias, ambulâncias, sustos, dores, mas uma vontade imensa de sobreviver, comecei a estudar sobre a estrutura legislativa, busquei entender a razão de tantos equívocos na política, na gestão dos parlamentares, nos atendimentos dos equipamentos de saúde pública, e procurei também aquelas iniciativas de legisladores que acertam e que fazem a diferença. Dentre mais de 31 mil candidatos, fui selecionado pra estar entre quase 1500 alunos na maior escola de políticos do Brasil, o RenovaBR, e ali segui, por meses – parte deles inclusive em recuperação de processos graves de saúde, dentro de um hospital ou em atendimento domiciliar -, entre pessoas de 32 partidos, de diferentes ideologias, convivendo de forma muitas vezes dissidente, mas sempre pacífica.

Enquanto via a cidade com um novo olhar, de quem para exercer sua cidadania precisava de uma acessibilidade que nunca notei, pelo viés de gestão desta cidade, percebi que existe a má política, a que todos nós conhecemos, e que é responsável por grande parte dos problemas concretos que enfrentamos na saúde, na educação, no nosso acesso aos serviços; mas existe, sim, a boa política, e que não há nenhuma forma atualmente conhecida de uma sociedade, uma cidade funcionar, sem que haja políticos – que determinam suas leis, que as fiscalizam (ou não), que as criam para o bem comum (ou não), que pensam a cidade como um espaço para TODOS ou não. Decidi, então, optar pelo SIM auto-afirmativo, confiante e esperançoso. Creio que todos os meus “fazeres” sociais, empreendidos por tanto tempo, podem ganhar força para a comunidade, se tiverem uma consolidação e reforço institucional. Fazer a boa política, a que de certa forma já faço do lado “de fora”, ajudar a fiscalizar, com mais força institucional as leis e a atuação do Executivo.

Enfrento, hoje, um novo câncer. Mas conheço esse inimigo e sei que ele não é mais grave que aquela enfermidade que corrói as entranhas da cidade e que levou a todos nós a nos afastarmos da política como quem corre de um vírus. Dessa tenho mais medo, mas sei que com a soma de muitos que estão acreditando dá pra vencer! Simbora acreditar? “Simbora fazer, BH”!

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